“Conhece a ti mesmo”

Segundo Leibniz, a finalidade última da filosofia é o autoconhecimento. É claro que o rótulo de “filósofo” não se aplica a qualquer ser dotado de capacidade cognitiva, mas a prática filosófica da reflexão introspectiva, é condição inegociável para quem quer que vise desenvolver qualquer intimidade consigo próprio e, por conseguinte, com o mundo exterior, uma vez que a unidade de consciência individual é a base do conhecimento para a abstração da realidade externa.

Quando um indivíduo se propõe a emergir da superficialidade do falatório e a observar a realidade à luz de uma perspectiva em consonância com a real objetividade dos fatos, desprendido de ideologias, de reducionismos categóricos e máximas retóricas, somente então podemos ter a certeza de estar diante de um indivíduo consciente – ou que, ao menos, esteja em busca da consciência. São estes os indivíduos que não se deixam mudar pelo meio onde se encontram, mas que, pelo contrário, mudam eles mesmos o meio onde estão. 

Em síntese, este empreendimento que retoma a máxima socrática, “conhece a ti mesmo”, consiste em um exercício mental para o qual há que se compreender e aceitar o fato de que muito daquilo o que compõe o nosso ser – nossos lugares comuns, nossos vícios de linguagem, nossos hábitos e pecados – nos foram legados pelas circunstâncias externas e por vezes os reproduzimos até mesmo sem querer fazê-lo racionalmente. Freud expressava este conceito mediante a adoção de uma distinção entre “o eu” e “o supra eu”, sendo o supra eu, aquela parte “não formalizada” da individualidade de cada um, que permanece à nível de inconsciência, cuja razão de tomar parte do indivíduo em questão permanece desconhecida. A busca pelo autoconhecimento consiste exatamente em, mediante a reflexão, trazer da inconsciência à consciência esses comportamentos e optar por mantê-los ou não – assim se desenvolve uma liberdade de pensamento cujo domínio é mister para libertar-se do cárcere da ignorância e desfrutar das demais liberdades. Para tal empreendimento, pode-se, além da reflexão e questionamento cotidiano dos próprios atos, fazer uso de um exame de consciência da Igreja Católica, no qual identifica-se os próprios pecados e tenta-se compreender as suas causas. 

Segundo o filósofo Olavo de Carvalho, “noventa por cento das vezes em que se pergunta pra uma pessoa ‘de onde você tirou essa ideia?’ ela te responde justificando a ideia”, mas onde ela a ouviu, como a adquiriu, comumente não lhe é importante e, por vezes, o indivíduo acredita que todas as idéias correntes em sua mente foram por ele mesmo elaboradas, frutos de alguma reflexão muito profunda. É difícil assumir que por vezes reproduzimos comportamentos, tiques de linguagem e raciocínio adquiridos tão somente por osmose e pela repetição passiva dos nossos semelhantes, mas identificar a origem das idéias correntes em nossas mentes é indispensável para o autoconhecimento, há que se adquirir a coragem de ousar saber, de divergir, de andar na contramão da maioria, renunciar a adoção passiva do comportamento das massas e a valores autodestrutivos que nos confortam por nos aprisionar a mediocridade.

Uma vez adquirido esse conhecimento próprio, abre-se mão de viver segundo os valores e tradições do tempo cronológico onde nos encontramos e tornamo-nos homens de todos os tempos. Para Olavo de Carvalho, “o filósofo é um homem de todas as épocas”, porque aquele que conhece a si próprio abre portas para conhecer e analisar todo o meio externo onde se encontra e as abstrações de todas as épocas, logo, não mais se limita ao espaço onde se encontra, mas vive à luz de verdades e valores absolutos, transcendentes, elevados.

Publicado por Eduardo Salvatti

Católico apostólico romano, revolucionário com engajamento social, desprendido de pragmatismos.

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