À Todos Convém a Caridade

Quem quer que disponha de uma mínima consciência social e já tenha experimentado a constrangedora experiência de ter que negar esmola a um mendigo, sabe a natureza da reação humana diante da desigualdade da qual fazemos parte: voltamos os olhos para o chão, fingimos não vê-los, não ouvi-los, não sentir o cheiro de sua indigência. Sentimos vergonha de nós mesmos ao nos vermos diante dos miseráveis porque, ainda que à nível de inconsciência, sabemos que temos parte em sua situação e esse contexto desigual em oportunidades, ausente de caridade e deficitário em fraternidade, avilta contra nosso senso de justiça.  

Por mais que determinados setores de uma direita secular e descompromissada com a cristandade e a justiça social tentem negar, a problemática da pobreza diz respeito não tão somente ao indivíduo em situação de miséria, mas à toda a sociedade que é, por sua indiferença e negligência, indiretamente culpada pelas mazelas sociais que atormentam a todos, de forma direta ou indireta. O dever de se comprometer a assegurar que todos vivam de acordo com a devida dignidade humana, com acesso aos bens mais básicos de subsistência, é de ordem social e sobretudo, individual. 

Embora a pauta social, no âmbito meramente retórico e político, tenha sido cooptada pela esquerda – não para eliminar a miséria, mas para usar dos miseráveis como curral eleitoral – há que se retomar o caráter profundamente cristão da caridade e reconhecer os méritos da crítica marxista no que se refere aos interesses de classe perpetrados no sistema político e social vigentes na sociedade de mercado. Faz-se mister retomar um princípio cristão fundamentado por Santo Tomás de Aquino e transposto para a Doutrina Social da Igreja, o princípio da destinação universal dos bens, isto é: a compreensão de que os frutos da Terra não são propriedade somente dos poderosos, mas de todas as criaturas de Deus dotadas de igual dignidade no que se refere ao seu caráter humano e pecador. O Sumo Pontífice, o Papa Francisco, em sua obra “O Amor é Contagioso”, retoma que “… A comida que se desperdiça é como que se fosse roubada da mesa de quem é pobre, daqueles que têm fome!”.

A desigualdade em si não foi jamais um problema, mas a desigualdade estrutural e frontal, mantida de forma inorgânica por uma elite econômica aliada à uma classe política que outrora ainda mantinha sob sua égide o poder executivo, judiciário e grande parte do legislativo, foi parte de um jogo sórdido de uma esquerda desgarrada de qualquer interesse social a qual muito tinha a ganhar mantendo os mais necessitados reféns de seus supostos programas sociais. 

Verdadeiros programas sociais, como são os defendidos pelo atual poder executivo, são aqueles que visam tirar do pobre sua condição de dependência do estamento burocrático e sua integração no mercado de trabalho e na produção de capital próprio, ainda que isso demande, no curto prazo, a garantia de subsídios, uma vez que se compreende que o dinheiro público é, não das elites políticas e financeiras, mas do povo e para o povo. Ademais, mais importante que programas sociais, o dever da caridade se expressa no zelo pelo próximo à nível individual, sobretudo. Diante da miséria, tangenciar ao Estado o dever de alimentar os famintos, de vestir os descamisados, é um ato deliberado e premeditado de uma covarde indiferença muito comum por parte daqueles que defendem, não a redução das desigualdades, mas a eliminação da riqueza pessoal e privada.

Convém lembrar que a busca por uma sociedade mais justa e fraterna, é indissociável de um reconhecimento da autonomia do indivíduo em sociedade. Para fazer o bem, erguer aquilo o que o Papa São João Paulo II chamava de “sociedade do amor”, não dependemos de sistemas políticos, nem de qualquer planejamento centralizado, é na unidade da consciência individual de qualquer um integrado a uma sociedade tão desigual, que urge o dever de correr em ajuda aos necessitados.

Publicado por Eduardo Salvatti

Católico apostólico romano, revolucionário com engajamento social, desprendido de pragmatismos.

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