A Perda da Beleza no Cotidiano

No contexto do caos urbano das grandes cidades, é incomum que se pare para contemplar o meio onde estamos integrados para dele abstrair qualquer sentido mais profundo no que se refere a beleza, a verdade e a bondade. “Apeirokalia”, termo aristotélico, diz respeito a um estado de privação dos aspectos mais belos da existência humana. Este estado, vem hoje se tornando cada vez mais constante, se consolidando no desprezo pela beleza consumado na arquitetura e na arte moderna, na descrença do caráter absoluto da verdade transgredida à individualidade, no desprezo pela bondade que transcende os pensamentos e palavras e se concretiza em atos.  

Segundo Aristóteles, “o bom, o belo e o verdadeiro convergem” de forma indissociável. Decorre daí a conclusão invariável de que o descrédito da verdade e da bondade precedem do gritante desprezo pela beleza entranhado no senso comum nacional. Pode-se aferir que o caos estético das pequenas e grandes cidades do Brasil, que os blocos de concreto erguidos sobre as antigas construções adornadas de ornamentos oriundos da cultura luso-ibérica, são em última instância, os responsáveis pelo desgarramento do belo no cotidiano do brasileiro médio. 

Menos pior seria se a contemplação de alguma arte cultu-ralmente elevada estivesse à disposição pelo menos das classes mais privilegiadas as quais dispõem de suficiente tempo para visitar museus e galerias. Contudo, mesmo esses espaços foram usurpados pelo modernismo artístico, em que a máxima “a arte imita a vida”, foi elevada à última potência, dando espaço a uma “arte” desgarrada de qualquer transcendência, que nada pretende revelar da existência humana ou da realidade sensível. 

Nos piores expoentes de modernismo artístico, apresenta-se uma arte de absoluto descompromisso com qualquer aspecto de realismo, na qual o caráter artístico do objeto em questão é subordinado a pautas político-sociais em detrimento da expressão concreta da realidade, logo não mais se produz arte, mas usa-se desta como instrumento de propaganda ideológica. Infelizmente, é esta uma das constantes mais antigas no Brasil: se O Poeta dos Escravos, Castro Alves, usava de suas belas poesias para constatar a realidade da escravidão e, mediante essa constatação despretensiosa, acabava por chocar os senhores de escravos, aqueles que, como Chico Buarque ou quase qualquer cantor MPB, usam da arte tão somente como instrumento de propagação de suas ideias, suprimem qualquer aspecto artístico que valha ser considerado. À eles, havemos de dirigir somente um olhar de constrangimento.

Quem quer que esteja minimamente atento às mudanças em curso no Brasil, deve ter, pelo menos em à nível de inconsciência, reparado que as mudanças de ordem política e social não ocorrem senão precedidas de uma mudança no âmbito cultural de qualquer civilização. A restauração da alta cultura no Brasil, é mister para assegurar uma possível subversão das estruturas de poder vigentes no social. Antes de pensar em projetos de Estado, em pautas econômicas a serem implementadas, há que se retomar as palavras do velho Goethe, “É urgente ter paciência”, e virar seus olhos um pouco para si, em busca de aprimoramento moral, intelectual e cultural para, mediante o próprio exemplo, vir a melhorar a sociedade de forma orgânica e concreta. Segundo o filósofo Olavo de Carvalho, para libertar-se do fenômeno da apeirokalia, há que se empreender no exercício das funções cotidianas, três exercícios contemplativos, bem como: a contemplação de belas paisagens, de melodias como música clássica, ópera e afins; A reverência ante o heroísmo e a santidade, se propondo a estudar a vida dos grandes santos, dos grandes homens que passaram por sobre essa Terra de Santa Cruz (convém ler o Novo Testamento, biografias de Dom Pedro II, de José Bonifácio, de Winston Churchill, de São Francisco, São João Paulo II…) de forma a abrir seu horizonte de consciência para formas de heroísmo as quais não seriam jamais permitidas na pós-modernidade; Silêncio e oração – exame de consciência e confissão diária, também – são indispensáveis para o conhecimento do próprio ser – conhecimento interior este que é condição sine qua non para o conhecimento do mundo exterior.

Publicado por Eduardo Salvatti

Católico apostólico romano, revolucionário com engajamento social, desprendido de pragmatismos.

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