Testemunho de uma Alma Sobrevivente de Seitas Neopentecostais

Enquanto católico, assumo que desde a minha conversão, jamais cogitei abandonar a Verdadeira Fé. Contudo, diante de relacionamentos adversos e de tentativas imprudentes de evangelizar estando em meio aos mundanos, me coloquei em situações perigosas para a alma de um recém convertido. Dentre estas situações todas, aquela que mais me agregou, de uma perspectiva meramente antropológica, foi a participação semi-ativa em seitas de denominações protestantes, mais especificamente em grupos e cultos de jovens de ordens neopentecostais. Acerca dessas experiências, me proponho a dar testemunho com a finalidade de constatar e melhor compreender a conjuntura social destes meios, o contexto religioso e, mais importante, a mentalidade dos jovens levados à aderir a estas seitas. Asseguro a continuidade do pensamento no decorrer da explicação mediante a adoção da sectarização dos tópicos em aforismos relativos à seus respectivos assuntos.

Não se pode emitir nenhum juízo de valor acerca dos integrantes de seitas protestantes senão precedido de uma breve explicação acerca do meio onde estão eles inseridos. O faço, a começar por um exercício mental de tentar compreender o que se passa na cabeça daqueles que – ao menos publicamente – se propõe a pregar o Evangelho. Me refiro aos pastores, categoria a qual conta com um seleto grupo de comunicadores, cuja mente empreendedora transcende inimaginavelmente o que se pode captar durante uma pregação. Não estou eu de maneira nenhuma sendo categórico nesta consideração, não posso omitir que no decorrer do tempo em que frequentei esse tipo de organização, por vezes me vi diante de sujeitos verdadeiramente crentes e bem intencionados, normalmente aqueles que receberam algum tipo de instrução religiosa formal em universidades. Mas mesmo esses bons expoentes de crentes, são, via de regra, subordinados aos “pastores executivos” e invariavelmente, por omissão ou complacência, compactuam com suas práticas desonestas as quais citarei logo em seguida.Não pude deixar de notar uma pregação muito uniforme entre a maioria dos pastores – inclusive entre seitas diversas – percebe-se um mesmo timbre de voz, uma mesma linguagem corporal, os mesmos maneirismos e vícios de linguagem, como que se aprendessem a pregar mediante a macaqueação um do outro. A manipulação empreendida por essa casta que opto por chamar de “pastores executivos”, é desmedida e tem por finalidade tão somente o lucro monetário individual, usado em primeira instância para assegurar-lhes o luxo de quem jamais fez um voto de pobreza e, em segundo lugar, para expandir o seu mercado de fé. As sessões de encontros – os “cultos”, por eles chamados – são efetuados em horários distintos com base em dois públicos-alvos, os quais são separados com base na idade: o culto dos jovens, que conta normalmente com participantes entre doze e dezenove anos e o “culto ordinário”, com os demais participantes. 

A forma dos cultos é essencialmente a mesma: uma banda, que normalmente conta com guitarristas e bateristas, marca o início e o fim da celebração tocando músicas gospel. Essa parte do culto é comumente chamada de “louvor” e costuma acontecer com uma participação bem ativa dos fiéis, os quais acreditam veementemente que nesse momento, ao cantar, bater palmas, levantar as mãos e, por vezes, pular, estão recebendo o Espírito Santo sobre si. O que acontece nesses ambientes de luz baixa, palmas ritmadas, globos de luz e música alta – por vezes altíssima – é uma espécie de auto indução voluntária à um estado de êxtase no qual o fiel se entrega a música crente de que fala, não com seus sentimentos aflorados pelo contexto geral, mas com Cristo, por mediação do Espírito Santo. Há que se observar que essa indução se concretiza tanto mais pelo som que pelas letras das músicas, as quais são vazias de profundidade teológica, meramente retóricas e pensadas não em qualquer tipo de louvor, mas no seu fácil entendimento por parte de um público pouco ou nada instruído em matéria de religião. Pode-se aferir sem medo de exagerar, que algumas – muitas – dessas músicas são eminentemente sacrílegas, uma vez que aviltam contra o Segundo Mandamento, usando de de forma desregrada, contínua e repetitiva o Santo Nome com uma finalidade puramente sonora. O chamado “louvor”, não apresenta grandes distinções quando apresentado para jovens ou para o público geral, em ambos os casos, busca-se tocar os sentimentos do fiel tão somente através da emoção desper- tada pela música e pelo ambiente. A única variação diz respeito ao volume da música e a ambientação: nos cultos de jovens, o som é consideravelmente mais alto e não raro usa-se luz baixa e globos de luz – quase uma micareta evangélica. 

A segunda parte do culto, intercalada com o “louvor”, é a pregação, que costuma tomar em média uma hora. No curso da pregação, o pastor deve discorrer acerca de algum tema específico. Nesse aspecto, pode-se dizer que a pregação, quando direcionada aos jovens, ensina algum código de conduta e fornece alguma base – ainda que distorcida – das noções de fé. Existe por parte dos pastores um verdadeiro empenho em transmitir para os jovens algo além do puro sentimentalismo e, nessas circunstâncias é inclusive omitida qualquer menção a dízimo ou ofertório, tendo em vista que os jovens não haverão de oferecer grandes quantias. Trata-se de uma estratégia de longo prazo adequar os jovens a doutrina da seita, e usá-los como instrumento de conversão de seus semelhantes. Se fôssemos traçar um tipo ideal do jovem neopentecostal, eu o descreveria como alguém geralmente do sexo feminino – uma vez que as seitas trabalham muito mais com valores sentimentais do que com doutrinas, atraem muita participação feminina – com pouca instrução formal em religião ou preso unicamente no debate interno protestante (calvinismo, luteranismo, arminianismo, etc), com pouco ou nenhum engajamento político ou partidário, na quase totalidade dos casos pertencentes a seitas onde foram incluídos desde o berço por seus pais, os quais muitos integraram mal e porcamente a Igreja Católica – isto é: foram batizados e portanto se consideram “ex-católicos”. Esse é outro aspecto interessante, a alegação de haverem “ex-católicos” na seita ou, muitas vezes, o pastor alegar ser um, vale de argumento para descartar qualquer debate com católicos. Do alto de sua ignorância e prepotência, o neopentecostal considera que “todo esse negócio de Igreja já foi refutado”, sem jamais se propor a conhecê-lo para além dos charlatanismos luteranos seguidos de “sola”. 

A pregação, quando dirigida ao público adulto, transgride o ideal de transmitir qualquer ensinamento – se expressa precisamente na continuação do estado de êxtase previamente induzido pela música. Os temas são de ordem mais geral, não mais de fala de castidade, de faculdade, de estudos ou de valores absolutos, mas do poder de Deus e, especificamente como ele pode ajudar os fiéis – não raro, o “ajudar” diz respeito a questões monetárias, o clássico “Dê seu carro pro pastor que Deus lhe devolverá uma limousine”. Tenta-se ganhar novos adeptos mediante a pregação de eventos concretos, embora inventados. Por vezes, o pastor se apresenta como uma espécie de super-herói que a cada nova pregação conta uma nova história – com riqueza de detalhes – sobre como desencorajou alguém a cometer suicídio, ou como salvou um gato de uma árvore, etc. O convencimento dos novos visitantes se dá pela credulidade inabalável por parte dos fiéis que escutam a pregação, não há nas seitas, membro ativo nenhum que house duvidar nem das histórias mais cabulosas. Demanda demasiada fé esta crença cega, de quem descrê nos milagres dos santos, nas aparições e profecias já concretizadas de Nossa Senhora, mas que não pestanejam por as mãos no fogo para afirmar que “o pastor da minha igreja cura câncer com imposição de mãos”. Diante deste cenário, o pregador se sente absolutamente confortável para inventar a história que quiser, certa vez ouvi de um pastor que ele havia sido chamado para exorcizar uma casa habitada pelo próprio demônio, quando, ao tentar entrar pela porta da frente, foi surpreendido ao ver as portas e janelas todas se fecharem, segundo o relato, ele adentrou a casa pela porta dos fundos e exorcizou o demônio dando-lhe um susto, para ver-lhe gritar e correr porta a fora. Aqueles que ouviam o cômico relato, porém, dirigiam ao pastor toda a credulidade devida a um líder de seita. 

Outro aspecto que me chamou a atenção foi o forte caráter de seita expresso na organização dos chamados “cultos de cura e exorcismo”, os quais são geralmente frequentados somente pelos fiéis mais adeptos e fervorosos, não nas sextas-feiras ou nos finais de semana, mas ao longo da semana sem avisos espalhados pelos pavilhões, de forma que esses cultos só chegam ao conhecimento daqueles que frequentam a seita com certa frequência, dando um ar de misticismo acerca disso, como que se tratasse de um conhecimento somente a disposição dos “iniciados” ou o que quer que o valha. Esses cultos são destinados somente a supostas curas e exorcismos, organizam-se filas de pessoas intercaladas com atores – estes conhecidos somente pelos pastores – a serem curados. O papel dos atores é muito simples e por vezes beira o absurdo, ouvi relatos de um evangélico que testemunhou ter visto um cadeirante – na verdade, um ator – voltar a andar mediante a imposição de mãos de um pastor – “Ora, mas por que esse curandeiro não vai trabalhar na Santa Casa?” foi o que tive vontade de perguntar. Não quero ser leviano em afirmar que todos que ali alegam ter recebido algum tipo de cura sejam charlatões ou tenham parte no esquema dos pastores, não raro, vê-se participantes leigos reagindo ao culto com a certeza de que foram curados ou de que alguma força maligna em seu corpo o impede de se aproximar do pastor.

Além do ódio a Santa Igreja e, comumente, o desprezo por Nossa Senhora, pelos santos, pelos papas e, de forma geral, por todos aqueles verdadeiramente participam da natureza divina, o discurso neopentecostal também é marcado por duas constantes cujo desmonte é de absoluta necessidade.

O primeiro, é a crença de que os adeptos do protestantismo – isso é, os evangélicos – já tem a garantia da própria salvação ainda em vida, isto é, de forma igualmente simples, a repetição da doutrina luterana do “sola fide”. Não é incomum que saia da boca dos evangélicos que uma ver que se converteram foram salvo e que para ser salvo basta “aceitar Jesus” que Deus, tão somente por amor paternal, haverá de lhes salvar, ainda que levem uma vida de pecado e sem arrependimentos, supostamente, basta crer. Há que se explicar, com inabalável paciência, que ainda que não sejamos dignos da nossa salvação, que ainda que os santos sejam, como dizia Santa Tereza D’Ávila, somente pecadores perdoados, há que se corresponder a Cristo não só mediante a crença Nele, mas mediante a concretização dessa crença no decorrer da própria vida. É mister que se compreenda que ter fé, não é o mesmo que ter certeza na salvação – ora, fé não é tão somente o mínimo necessário para corresponder a Cristo, até Judas tinha fé e nem por isso foi salvo, porque não correspondeu verdadeiramente a Cristo em seus atos.

A crença de que o evangélico, por sê-lo, não adere à uma religião, mas as transcende e alcança diretamente a Deus, também é um erro corriqueiro que, pela ausência de humildade, retoma o episódio da Torre de Babel e se concretiza na dogmática luterana sintetizada por “solo Cristo”. Se fosse a Bíblia de tão simples interpretação, como afirmava Lutero, não haveriam hoje tantas denominações protestantes divergindo acerca de determinações tão dogmáticas – a teologia, uma vez desgarrada da sucessão apostólica da Igreja de Cristo, se torna cega, porque assim se perde a unidade da fé professada pelos apóstolos. Na obra O Jardim das Aflições, o filósofo Olavo de Carvalho explica o funcionamento da fé e dos dogmas como que se fé pudesse ser representada pela água, a qual, para ser bebida demanda um instrumento capaz de carregá-la: um copo, que é uma metáfora para os dogmas. Sem um copo sólido, sem os dogmas da Igreja fundada sobre a solidez da rocha, de São Pedro apóstolo, não se pode bem aplicar a fé como Cristo a deixou para nós. Convém lembrar que Cristo subiu aos céus sem nos deixar qualquer Escritura, mas deixou uma Igreja, uma Igreja una, santa, católica e apostólica. Essa Igreja, por sua vez, que apenas no século IV organizou a cânone da Bíblia como hoje conhecemos.

Fui profundamente marcado pela tristeza e melancolia de testemunhar tantos jovens como eu, de boa fé, se deixando enganar por esse simulacro de religião. Pareceu-me que o faziam por transgredir o valor espiritual da busca pela verdade em detrimento de permanecer com a estabilidade no seu círculo social. Há que se compreender que a enorme maioria desses jovens foram introduzidos a essas seitas pelos pais, e lá compuseram um considerável grupo de amigos unidos pela mesma instituição. A mera consideração de conhecer um cristianismo embasado na sucessão apostólica com vinte séculos de tradição, os soa como uma afronta ao conforto de se saberem estar de acordo com seus amigos e familiares – e de fato é. Cristo não nos pede que cortemos relações com os mundanos, mas demanda para a salvação, fidelidade ao Pai, a sua Santa Religião e a sua Igreja: una, santa, católica e apostólica. É nosso dever atuar mediante a oração e a explicação calma e passiva, porém intransigente, na conversão desses indivíduos à plenitude da fé, “sejamos intransigentes na matéria, mas suaves na forma”, dizia São Josemaria Escrivá.


Publicado por Eduardo Salvatti

Católico apostólico romano, revolucionário com engajamento social, desprendido de pragmatismos.

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